7 coisas que aprendi – por Davi Boaventura

Em uma iniciativa conjunta* entre os blogs Escriba Encapuzado e Vida de Escritor, T.K. Pereira e Alexandre Lobão convidam escritores para compartilharem suas experiências com os colegas de profissão, destacando sete coisas que aprenderam até hoje. Não interessa se você é iniciante ou veterano, se escreve poesias, contos, romances ou biografias, envie sua contribuição para esta série de artigos!

Neste post, com a palavra, o jornalista, mestrando em Escrita Criativa e autor de Talvez Não Tenha Criança no Céu, Davi Boaventura.

  1. Viva.

    Há quem discorde, e é bom que alguém discorde, mas sou da teoria de que vida e arte são universos absolutamente interconectados e, portanto, é bastante difícil criar, com propriedade, a segunda prescindindo da primeira; isto é, é preciso viver, experimentar, ter diferentes experiências, mesmo as frustrantes, as tristezas.

    É preciso também observar os diferentes tipos de pessoas, as reações, suas e dos outros, as vontades, conversar, andar de bicicleta, transar, queimar uma panela de feijão e almoçar um prato pela metade e então escrever e escrever e escrever e por aí vai, transformando o que se viveu e o que se viu e o que se sonha da vida em material literário.

    A questão, para mim, é que, por mais particular que seja o ato da escrita, por mais que o texto seja a expressão última do sentimento, ou do mundo interior, do autor, a literatura não pode se limitar somente ao Eu, ou seria um diário, e não literatura. Esse Eu precisa de diálogo. E, sempre que possível, um diálogo sem julgamento algum, flexível, não-moralista.

    O mundo é muito complexo; e não faz mal a ninguém, muito menos para o escritor, aceitar a pluralidade e ultrapassar o maniqueísmo de Bem contra o Mal. 50 Tons de Cinza é, na verdade, o maior título de autoajuda da história.

  2. Consuma.

    Ninguém mais suporta escutar que, para ser um bom escritor, é preciso ser um bom leitor. Existe, claro, uma verdade aí, que é: quanto mais se lê, mais se aprende sobre a técnica literária, os diferentes discursos, narradores, estratégias para enganar o leitor e fazer com que ele acredite que seu livro é bom, mesmo não sendo. Mas, me parece, é uma verdade incompleta.

    Não basta somente ler. Além de ler de tudo – de Turma da Mônica a Pynchon –, é preciso também assistir filme, teatro, artista de rua, circo, ouvir música, ir a museu. É a mesma lógica do item anterior: suas influências literárias não são somente os livros que você lê, são todos os produtos culturais lidos, vistos, ouvidos, que, absorvidos, ou até rejeitados, dentro de seu horizonte cultural, se transformam em texto.

    Nirvana e Charlie Brown Jr. são tão importantes para a formação quanto Kerouac, Joyce e Machado de Assis (Eça de Queiroz, não, peloamordedeus).

  3. Escute.

    Acho que está em Bartleby & Companhia, de Vila-Matas: o fato de se publicarem tantos livros é uma prova de que ninguém é dono da verdade. Tudo bem que o seu nome é o responsável pelo escrito no texto, mas não adianta nada se achar a última bolacha do pacote. Aceite a crítica, porra.

    Entregue seu texto para alguém confiável ler e ouça o que essa pessoa vai te dizer. Peça para ela ser o mais sincero possível e não fique magoado se a opinião for dura. Pode ser que você não concorde com a crítica, mas o importante é justamente se questionar, perceber a existência de alternativas.

    Oficinas literárias são boas por colocar seu texto em choque com leitores não tão bondosos quanto sua mãe, a não ser que sua mãe seja Bárbara Heliodora, aí você está fodido.

  4. Contextualize-se.

    Estou já me repetindo, mas: se a diversidade é um dos principais motivos para sobrevivência da espécie, é mais do que importante se misturar a essa diversidade; quer dizer, se cercar de um ambiente plural, vivo, ideias diferentes, pessoas diferentes, credos diferentes – às vezes, uma conversa absolutamente inesperada dá a solução para um problema irresolvível há meses na sua cabeça.

    Sugiro conferir, para uma explicação melhor, o Grande Vídeo Motivacional abaixo.

    Uma curiosidade: conheci o vídeo em uma aula do mestrado em Escrita Criativa da PUCRS, que é justamente o tipo de (bom) ambiente ao qual me refiro – não estou fazendo propaganda da faculdade porque o período de inscrição acabou de acabar, mas não tenho a menor dúvida de como me mudar da Bahia para o Rio Grande do Sul a fim de estudar no curso mudou bastante a minha perspectiva sobre o Ato de Escrever.

  5. Exercite.

    No caso, digo exercício de exercício físico mesmo. Acho que está, ironicamente, em Medo e Delírio em Las Vegas, de Hunter Thompson (um dos livros mais engraçados da humanidade), citando um boxeador: mate o corpo e a cabeça morrerá. É uma avantajada besteira essa história de ser preciso sofrer para escrever, já deu para perceber essa minha opinião.

    É preciso viver (de tudo) para escrever. E você vai conseguir realizar essa Missão Divina com muito mais facilidade se tiver Energia & Endorfina no corpo para tanto. Seu cérebro vai funcionar melhor, você não vai ficar com sono no meio de um parágrafo bobo.

    Nada contra os escritores bêbados-drogados-suicidas-sedentários – eu mesmo me encaixo com louvor na categoria “suicida-sedentário” e Hunter Thompson então nem se fala –, mas cuidar um pouco de si não é pecado nenhum.

  6. Reescreva.

    Escrever não é somente vomitar a palavra no papel, embora também se possa ser assim. Escrever, na esmagadora maioria dos casos, é trabalhar o texto, cortar passagem, amadurecer reflexões, polir diálogo. É dar cara de literatura.

    Para se ter literatura, e não um emaranhado de frases sentimentalóides e/ou ingênuas, é preciso se acabar com essa ideia estúpida de Gênio romântico, o sujeito inspirado a girar o mundo sempre a cantar as coisas lindas da América, e preparar, revisar, editar. Pense em Muricy Ramalho: “aqui é trabalho, meu filho”.

  7. Paciência.

    É ótimo quando você, em um jorro, consegue escrever no papel absolutamente todas as ideias acumuladas dentro da cabeça de forma Precisa & Exata. Mas, em geral, não é assim. Em geral, você se esquece de uma característica importe para o personagem, envereda por um caminho errado, fala mais que o suficiente. Ou, então, escreve, escreve, escreve e cansa.

    Descanse um pouco, continue de noite, amanhã, semana que vem. Quando você tentar matar de uma só vez o texto, acontece exatamente o que acontece com esse texto aqui: os parágrafos, que no início eram enormes, ficam pequenos e incompletos ao final.

Sobre o autor

Escritor Davi BoaventuraDavi Boaventura é soteropolitano, jornalista, mestrando em Escrita Criativa pela PUCRS. Publicou contos no Brasil e em Portugal, além de ter lançado, em 2012, o livro Talvez Não Tenha Criança no Céu. Está, no momento, revisando o seu segundo livro.

Processo Criativo: 2 mil toques

Blog: Cachorro Abandonado

Perfil no Facebook: Perfil

Twitter: @daviboaventura

E-mail: daviboaventura@gmail.com

Veja a opinião de outros autores aqui e no Vida de Escritor!

eBook 7 coisas que aprendiGostou das 7 dicas do Davi? Quer aprender mais com a experiência de outros 58 escritores? Baixe agora o eBook gratuito da série 7 coisas que aprendi.

* Projeto inspirado pela coluna “7 Things I’ve Learned So Far”, da revista Writer’s Digest.



Comente à vontade!

Ou opine pelo Facebook:

Seguir

Inscreva-se e receba notificações de novos artigos por email.

Junte-se a outros seguidores.

%d blogueiros gostam disto: