7 coisas que aprendi – por Cris Vázquez

Em uma iniciativa conjunta* entre os blogs Escriba Encapuzado e Vida de Escritor, T.K. Pereira e Alexandre Lobão convidam escritores para compartilharem suas experiências com os colegas de profissão, destacando sete coisas que aprenderam até hoje. Não interessa se você é iniciante ou veterano, se escreve poesias, contos, romances ou biografias, envie sua contribuição para esta série de artigos!

Neste post, com a palavra, a querida Cris Vázquez, escritora publicada e Mestra em Literatura pela UFSC.

  1.   Água.

     O surfista gosta do mar porque, além das ondas, a água o coloca em conexão direta com a emoção. Deve ser por isso que a ideia do escritório na praia também funciona para nós. Você leva cadeira, caderno e caneta. E começa. Se travar, dá uma olhadinha para a água e continua. O mar te dá uma via direta com a palavra, sem medos ou papas na língua, como na língua espanhola, tudo oito ou 80. Na praia, a escrita é incensada pelo sol, que é energético, portanto, inspirador. Voltando à água, o banho é outro momento em que as ideias surgem ou se esclarecem ou se completam.

  2.   Terra.

    O pampa já me deu o mesmo efeito da praia. Você pode pensar na montanha. É com você. Neste tópico, digo que uma boa caminhada na superfície do planeta propicia insights, arquitetura de ideias, embora às vezes venham a fórceps, o que é compensado por sopros do vento. Só não creio que the answer is blowing in the wind, mas que a resposta está no interior.

  3.   Entranhas.

    Freud explica que quando um objeto domina o pensamento, ele demanda ser completado em seus próprios termos. Você tira o objeto para fora, de onde possa olhar para ele, e o inconsciente virá à tona. Isso significa que o objeto deflagrador do processo criativo já estava nas entranhas do escritor e, no momento em que ele o coloca para fora, aí sim conseguirá explorar os reais motivos por que fora tocado pelo tema. E então estará explicado o que é a inspiração. E também porque às vezes achamos (só achamos) que descobrimos nossas histórias no ato de escrever.

  4.   Corte.

    Você corta quando abraça um único tema, dentre infinitas possibilidades, e persegue a chamada unidade do efeito, imprescindível a contos e novelas. Cortar significa eliminar a sintaxe e o léxico complicados para atingir a simplicidade, o mais sofisticado dos valores, tanto na vida, como na arte.

    Você escreve SIMPLICIDADE e coloca ao lado do computador. Você corta adjetivos e advérbios. Adere aos implícitos. Persegue a limpidez do texto e evita emaranhados sintáticos. Para mim, foi um grande aprendizado, pois costumava me divertir ao criar guinadas na sintaxe.

  5.   Costura.

    A tessitura de um texto ficcional claro para o leitor passa pelo domínio das seguintes categorias: personagem, enredo, narrador, tempo e espaço. São aspectos que todos os escritores percebem quando leem textos literários, aplicam nos seus, mas não estão acostumados a teorizar. E quando estudamos essas categorias, passamos a utilizá-las com mais competência. Geralmente, as oficinas literárias as exploram.

    Cursei a do Professor Luiz Antônio de Assis Brasil e, como ele disse, são questões teóricas que vemos não para saber, mas para aplicar nos nossos textos. Aprendemos para depois esquecer. Mas como me ajudaram! Como me tiraram dúvidas! Mesmo com a bagagem da Oficina, acompanhei o curso on line da Carreira Literária, da Flávia Iriarte, que também trata desses aspectos. Enfim, a literatura é como a seda, que precisa ser tecida e bem conservada, para não nos corroer. Quando desanimo, volto aos estudos. Vício bom.

  6.   O texto acontece.

    Sei reconhecer quando uma música acontece. Ela tem um ritmo, um estado da arte, que nos toca a alma. A gente quer ouvir de novo. E cantar. Ou dançar. Como não sou musicista, eu sinto, mas não sei explicar. E qual o estado da arte da escrita? Acredito que seja a escrita de alguém que lê muito, consegue mostrar mais do que contar, desperta os cinco sentidos do leitor, pesquisa para escrever, logo, nos fala com conhecimento de causa, não tem medo das palavras, nem de ousar. É um mistério quando o texto acontece, mas é um gozo que a gente sabe reconhecer.

  7.   Trabalho e legado.

    Escrever dá trabalho. Você deixa de socializar, de passear, para escrever. Sente dor quando parir um texto se torna complicado, quando quer escrever e não pode porque tem outros afazeres. Mas é o princípio do prazer: quando a ideia ganha corpo e a obra sai, e quando sai como você quer, então, o regozijo é enorme.

    Ao mesmo tempo que escrever é ato egoísta, no sentido de satisfazer o impulso de criar novos mundos do escritor, o seu gosto pelas palavras, sua brincadeira favorita, a obra resultante é um presente para a humanidade, ao menos para seus pares, seus leitores, para as pessoas que ele gosta e que gostam dele.

    As descrições do outono e da morte, pelo Professor Assis Brasil, são incríveis. Você passa a amar a estação, entender a morte, e até compará-la com o impulso da escrita. E ler a Tatiana Salem Levy no caderno de fim de semana do Valor Econômico é frequentar aula de literatura das mais prazerosas.

    Então a gente agradece a quem escreve, e agradece a quem nos reconhece como escritores.

Sobre a autora

Escritora Cris VázquezCris Vázquez é Mestra em Literatura pela UFSC, mantém o blog Contart – Conto e Arte e tem contos publicados em revistas eletrônicas e antologias impressas.

Blog Oficial: Contart

Cris Vázques na Amazon: Eu te Nuvem

Facebook: Perfil

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* Projeto inspirado pela coluna “7 Things I’ve Learned So Far”, da revista Writer’s Digest.



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