Os Frankensteins ainda estão Vivos

Frankenstein de Mary Shelley

“Se não posso inspirar amor, EU PROVOCAREI MEDO!”

O extraordinário da leitura é que poucas horas reservadas a bons livros nos permitem fazer associações entre a ficção e nossas próprias vidas. Afinal de contas, toda obra de ficção apresenta em suas raízes alguma dose de inspiração na realidade. Tendo dito isso, analisarei a obra Frankenstein da autora britânica Mary Shelley, tentando fortalecer o argumento da contemporaneidade dos temas abordados por Shelley.

Mary Shelley descreve uma sociedade na qual a comunidade científica caminha com avidez e certa dose de ganância para um objetivo—a capacidade de compreender e gerar vidas humanas. O personagem Victor representa, em sua obsessão por criar novas vidas mediante a combinação de elementos químicos e restos humanos, essa ansiedade dos segmentos científicos em dominar o aspecto mais importante da vida—a sua geração. Entretanto, em tom claramente crítico, Shelley nos apresenta como produto dos trabalhos de Victor um novo ser completamente deformado—alguém quase insuportável para a visão humana.

Desesperado pela incapacidade de desfrutar do convívio de outros humanos em decorrência de suas horrendas feições, o novo ser criado implora ao seu “inventor” que crie um segundo ser—uma mulher—de forma que ele [a criatura] poderá obter dela afeto e compreensão. Nesse contexto, Shelley nos confronta com algumas questões importantes: primeiro, que Victor se recusa a gerar um novo ser por temer que duas criaturas podem representar um risco significativo para a humanidade. Segundo, o desespero da criatura devido à forte rejeição de outros humanos pelo fato de suas horrendas feições. A autora britânica aborda, assim, duas questões—a necessidade de controle e o desespero movido pela rejeição.

Vale acrescentar também que no momento em que há a recusa por parte de Victor em relação ao pedido de oferecer à criatura uma companheira, o ser de feições horrendas cede ao desespero e começa a assassinar os parentes do cientista na expectativa de convencê-lo a atender à sua demanda. Esse elemento da chantagem caracterizada por alto grau de violência possui ecos muito fortes na sociedade atual na medida em que vemos tantos crimes brutais sendo cometidos pela frustração de interesses pessoais não atendidos. Lamentavelmente, em muitos casos esses atos violentos têm como pano de fundo uma realidade de discriminação e exclusão de certos indivíduos em relação à sociedade por condições particulares de doenças e limitações físicas.

Outra questão importante na análise da obra de Mary Shelley é a personalidade da criatura. Diferentemente do que o leitor pode pensar, o novo ser demonstrou grande interesse em se integrar na sociedade e empenhou grande esforço para alcançar tal objetivo mediante o estudo da língua e hábitos das pessoas. Curiosamente, Shelley oferece ao leitor um encontro inusitado—o primeiro contato da criatura com outro ser humano, excetuando-se Victor, se dá com um homem cego que o trata de uma forma bastante cordial e afetuosa. Mas, a criatura na cena seguinte é maltratada pelos familiares do idoso que o afugentam como se um criminoso fosse. A autora britânica aborda assim o tema da aceitação social, dos esforços que empenhamos para atendermos às exigências sociais. A cegueira aponta para a ingenuidade daqueles que não conseguem enxergar pelas lentes do preconceito.

Em conclusão, a leitura da obra de Mary Shelley nos faz sentir que a autora está falando por todos nós, uma vez que a sociedade contemporânea com todas as suas belezas e amarguras parece muito bem representada pelos personagens e temas abordados por Shelley. Nada pode ser mais contemporâneo do que certos temas envolvidos na narrativa tais como ambição, cobiça, violência, desespero e rejeição. Independentemente das particularidades sociais, econômicas e culturais de um determinado período da História, os elementos anteriormente citados sempre farão parte de nossas vidas.



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